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BLOG

Mães SCTP: Renata Marques

09.May.2018

Mãe de alma e coração: Porque somos todos adotados por quem amamos

 

No dia em que fui conversar com a Renata fazia um sábado quente em Barão Geraldo, onde nos encontramos em um café indicado por ela. Assim que ela chegou nos abraçamos, pedimos uma limonada com gengibre e ela começou a contar com todo o amor e confiança uma história que antes não havia contado publicamente, ainda. Mas que todo mundo poderia ouvir, em qualquer lugar do mundo - pelo amor que ela transmite. A Renata é uma mulher expansiva, que fala com propriedade, confiança e empatia. Me senti em um diálogo, de fato. Sem celulares, só olho no olho, sorrisos e uma cumplicidade forte. Foi nesse clima que ela começou a me contar que era esposa do Fábio e mãe do coração do João Guilherme, adotado pelo casal em 2014 e hoje com 4 aninhos. E é essa história de maternidade que transborda alegria que venho dividir com vocês hoje aqui no blog da Santa.

 

Mais do que um amor intenso de mãe para filho, senti nessa conversa a força do amor pelo próximo, pelo ser humano. Por diversas vezes a Renata fez questão de frisar o quanto é grata pela vida da mãe biológica do João, e a franqueza dessa fala, esse poder de se colocar no lugar do outro, me deixou tocada. "Todo mundo tem uma história, e a gente precisa valorizar e respeitar isso". Foi o que ela me disse. Para ela, ter filho não pode ser status, e sim escolha. Uma escolha vivenciada em toda a sua plenitude, seja em uma gestação de 9 meses como acontece com a maior parte das mulheres ou em anos de espera, como foi o caso dela.

 

A Renata é nossa cliente e amiga há tempos e algumas de nós tivemos a chance de acompanhar todo esse processo de encontro com o João, essa construção diária de laços poderosos de amor. Afinal, como a Rê mesma diz, amor é construção e troca. E, por isso, ser mãe não é algo construído necessariamente apenas na gestação - é um processo. É assim, com muito amor construído e compartilhado diariamente, que teve início essa história de maternidade cheia de consciência, pé no chão, parceria e escolha. Essa conversa só me fez ter certeza de que somos todos adotados por quem nós amamos. E que o amor é mesmo um elo para a vida, capaz de unir histórias, geografias e pessoas. Vem ler!

 

 

Por Thaís Jorge

 

Você sempre teve vontade de ser mãe? Como teve início esse processo de escolha?

Na verdade eu e o Fábio sempre tivemos vontade ter filhos. E quando resolvemos começar a tentar, descobrimos que nós dois não poderíamos ter filhos biológicos. Ainda assim, não desistimos. Eu fiz três fertilizações, engravidei, perdi (eram gêmeos). Foi uma época muito desgastante e hoje não faríamos de novo, mas acredito que foi essencial tentarmos. E incentivo as pessoas a tentarem sempre. A verdade é que eu sempre fui aberta a ser mãe independente de como seria. Mas realmente não estava acontecendo. Aí nesse meio tempo o médico que nos atendia, uma pessoa muito querida, disse: "gente, vocês são um casal tão especial que eu queria fazer uma pergunta. Renata, você quer gestar um filho ou quer ser mãe? Aí eu disse que queria ser mãe. E ele perguntou se nunca tínhamos pensado na adoção. Parece que acendeu uma luzinha. Porque começamos a pensar nisso de outra forma. Sentamos , conversamos, e o Fábio me disse que por ele esse processo já teria até acontecido. Por fim, entramos com todos os papéis. Aí tem uma avaliação cível, social e psicológica para apenas depois você entrar na fila. Hoje o cadastro é nacional, e aí você opta por fazer a adoção no Brasil todo ou selecionar estado e município.

 

O que mais te marcou no começo desse processo do cadastro para adoção?

Nossa, uma coisa muito importante nesse processo foi a gente se apropriar da certeza de que ter filho sempre é uma opção. E que adotar não é uma caridade. Quando nos cadastramos para entrar na fila há uma entrevista com psicólogo, e quando passamos por esse momento tivemos muita sorte. A psicóloga explicou muita coisa pra gente e nos ajudou na parte mais difícil, que é escolher o perfil da criança. Porque você tem que escolher, não tem jeito. Mas não queríamos restringir etnia, nem regionalidade, nem sexo, nem nada. Me lembro também que ela deu um direcionamento muito grande até sobre como poderíamos contar sobre tudo isso pro nosso filho ou filha depois, quando chegasse o momento. Foi incrível, e ela me fez lembrar de momentos da minha própria infância que me ajudaram a construir essas ideias mesmo. Hoje percebo que essa conversa foi muito importante para nós. Até hoje gosto de pensar em contar tudo para o João de maneira muito natural porque é a história de vida dele, e ele tem direito a isso. Respeito quem pensa diferente, mas isso me traz um conforto muito grande, vai ao encontro do que eu acredito.

 

Falando em acreditar, quanto tempo demorou esse encontro com o João? E como foi essa espera, esse exercício de paciência e confiança que você estava me contando?

Eu tenho certeza que nossa história começou antes da concepção dele. Ficamos na espera por três anos. Lembro que uma época encontramos amigos de amigos em uma festa e eles apareceram com os filhos, gêmeos. E eu falei para a moça: "poxa, seus filhos são lindos, são a cara de vocês!". Ela se virou e me falou: "eles são do coração". Aí falei para ela que eu estava nesse processo (na fila para adoção) mas estava muito desanimada. Ela disse que não era para desanimarmos e chamou a gente pra um jantar na casa deles na próxima semana. A gente foi. Ela me contou que depois de 2 meses que ela estava habilitada a adotar entraram em contato com ela da Vara de São Luís do Maranhão. E os meninos estavam lá. A assistente social mandou uma foto dos meninos para ela e eles ficaram eufóricos. Eles não tinham nada a ver com o perfil que o casal havia solicitado mas teve uma ligação imediata. E já sentiram que eram os filhos deles. Aí ela disse que me chamou pra ir na casa dela porque realmente o processo era muito burocrático mas que gostaria de nos ajudar. Foi então que ela me passou um conteúdo de uma carta que ela havia utilizado na época em que estava na fila de adoção e eu o reescrevi com a nossa história. Mandamos para umas 70 varas no Brasil inteiro. E essa carta inclusive eu repliquei em grupos de adoções dos quais eu participava. Seis meses antes do João Guilherme chegar, em outubro de 2014, uma amiga do grupo (com a qual eu compartilhei essa carta) veio me contar que havia sido chamada pra buscar a filha dela. Adivinha onde? Em São LuÍs do Maranhão. Eu fiquei muito feliz. Mas confesso que fiquei arrasada, porque parecia que só não chegava pra gente. Foi uma época difícil. Tive depressão, cheguei a 47 quilos.


E como você recebeu a notícia de que o João esperava por vocês?
Nunca vou me esquecer desse dia. Era 19 de fevereiro de 2015 e eu passei a noite meio mal. Acordei várias vezes, estava com medo que estivessem voltando os sintomas da depressão. O Fábio me acalmou. Aí eu pensei: hoje antes de ir para o trabalho vou passar na igreja que sempre frequentei. Mas aquele dia eu iria para agradecer. Aí fui pra lá. No meio do caminho eu lembrei que tinha tido um sonho, e nesse sonho eu falava para a Lidiana, uma amiga minha do trabalho: "Lidi, o neném chegou".

Cheguei no trabalho e contei do sonho para ela. Nós duas choramos, aquela coisa toda. E ela dizia: esse momento vai chegar e eu vou estar com você. Quinze minutos depois toca meu telefone e era um nome diferente. A pessoa falou que era da Vara de (adivinha onde?) São Luís do Maranhão. E falaram se eu estava interessada em um bebê que estava para adoção lá. E aí foi uma emoção danada. Porque eu pari naquele momento, né. A assistente me disse pra ficar calma e que eu só iria pra lá quando estivesse preparada. Fomos pra lá 1 mês depois, em 19 de março. Foi muita ansiedade, mas hoje vejo que esse período de preparação foi providencial. Antes de irmos, a assistente do abrigo me pediu para enviar por correio objetos, brinquedos e roupinhas com identificação nossa e da família mais próxima, para que o João pudesse ver e começar a se familiarizar. Ela também pediu que eu e o Fábio fizéssemos um diário de vida do João para trazer pra ele. " Qual vai ser a história de vida dele com vocês? E lembre que ele só tem 1 aninho, então tem que ser algo lúdico", ela disse. Então a gente fez uma história. E a assistente social ia passando as notícias pra gente. "Renata, ele não larga o diário", ela dizia.


Vocês foram pra lá depois de um mês?

Sim, parecia uma eternidade a espera! Mas quando fomos pra lá foi muito legal porque todo mundo queria ir com a gente, fazer tudo por nós. Foi uma energia maravilhosa. Da nossa família, dos nossos amigos. E as meninas da Santa fizeram parte disso. A Cris, a Gabi, elas ficavam super felizes! Acompanharam tudo. Lembro que assim que chegamos em São Luís uma equipe extremamente cuidadosa contou toda a história de vida do João, perguntaram se tínhamos certeza que queríamos mesmo, etc. E chegamos no abrigo muito emocionados. Eu falava: só quero ver meu filho. É uma emoção fora do normal. A gente chorava muito. Aí a coordenadora do abrigo chamou a gente pra ir tomar um café e conversar. Enquanto falávamos com a psicóloga e que ela viu que estávamos mais calmos, ela chegou com ele no colo. Me lembro dela dizer: "João, não te disse que seu papai e sua mamãe iam chegar?". Ele olhou pra mim e falou: "mamãe". E veio no meu colo. Foi uma emoção indescritível. Isso não é tão comum. Eles já tinham me preparado que ele não iria comigo à princípio e foi o contrário.

 

Como foi esse encontro de vocês três?

Foi gratificante, foi poderoso demais. No primeiro dia já demos banho, comida, trocamos fralda. Depois de uma semana o juiz já queria deixar a gente ir embora, mas o promotor indeferiu o processo porque disse que era impossível uma criança fazer vínculo em uma semana. Eu estava arrasada, afinal queria vir embora com meu filho. Mas eles só liberaram ele para ir para o hotel com  a gente, com monitoramento da equipe psicossocial, etc. Mas já era alguma coisa. E olha, a maior emoção que a gente teve na vida foi quando a gente saiu do abrigo com ele. Não por nós, mas por ele. Ele olhava os carros, as pessoas, era um mundo novo. E o dia que a gente levou ele pro hotel percebemos que ele nunca tinha visto grama, e ele perguntava: mamãe, o que é isso? Aí caiu a nossa ficha da responsabilidade que tínhamos ali e especialmente  da referência de amor que a gente tinha que dar pra essa criança.

 

E você disse que a viagem ao Maranhão para encontrar seu filho ainda trouxe mais alegrias. Quais foram?

Sim, foi muito especial. No geral as pessoas eram muito acolhedoras com a gente. A generosidade das pessoas é algo fora do normal. Como as coisas são muito perfeitas, ainda tinha mais presentes por vir. Um dia eu fui fazer a unha em um salão de bairro por lá  e comecei a conversar com um senhor, o Valfredo. A conversa foi acontecendo de forma muito natural e contei que tinha ido ao Maranhão para buscar meu filho. Aí eu disse que aquele dia sairia do hotel pra ir pra uma colônia de férias que o Tribunal ia dar de presente pra gente. Ele disse que não, que era pra gente ir pra casa dele. Foi algo muito maluco porque éramos desconhecidos, mas senti muita confiança nele. Contei para o Fábio e ele não entendeu nada, mas fomos. Chegamos na casa da família do Valfredo e fizeram uma festa pra gente. No fim, construímos uma segunda família lá, e ele é padrinho do João. Acabou que ficamos uma semana no hotel e 15 dias na casa do Valfredo. Nesse meio tempo já éramos uma família, não tinha como alguém dizer que não. E um dia o promotor que indeferiu nosso pedido para voltarmos pra casa com o João encontrou a gente numa padaria e veio conversar. Ele disse: "viu, eu errei com vocês. Vocês precisam da guarda definitiva dessa criança.Olha o amor que vocês três têm aí". E assim ganhamos a guarda do João e viemos para casa.


Quando você pensa nos muitos e únicos aprendizados de toda essa experiência, o que mais se sobressai? O que a maternidade trouxe para a sua vida, a sua história?
Aprendi que amor a gente constrói diariamente. O Valfredo, que acolheu a gente no Maranhão, sempre me falava isso, aliás. E eu levo isso comigo pra todo lugar. O João é nosso filho do coração, uma benção nas nossas vidas. Um menino muito doce, carinhoso e com uma sensibilidade enorme. Ele nos ensina todos os dias. Hoje mesmo a gente ficou o dia todo com ele no Sesc e a gente faz questão de participar de tudo. Não é fácil educar, mas também venho aprendendo com isso. Já tive aquela fase do medo de falar não, de vários medos aliás. Mas são inseguranças normais, com as quais vamos aprendendo. Aprendi que amor é construção diária. Se você erra hoje, amanhã você vai acertar. Também aprendi que cada pessoa tem uma história, que merece ser respeitada. O João nasceu na rua, nem deu entrada no hospital. Mas eu falo que sou muito grata pela vida da mãe biológica dele, porque ela me deu a oportunidade de ser mãe. A oportunidade que eu estou tendo agora ela não teve lá atrás. Não podemos julgar uma mãe, nunca. Se ela abandonou o João, ela tem uma história de vida, e essa história precisa ser respeitada.

 

 

 

#mulheresreais #historiasdemaes #maessctp #diadasmaes

Comentários

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Vera Lúcia moreira da silva

10 mai, 2018

Conheço Renata faz alguns anos sempre admirei ela sabia Um pouco de sua história . Mais me emocionei te amo sua linda tenho mais orgulho ainda Beijos saudades

Márcia Jurdim

10 mai, 2018

Todo meu respeito e admiração pela mãe Renata! Ela ficou linda e valorizada nesse perfil Santa Costura! Parabéns!!!

Rita Montanini

10 mai, 2018

A cada dia o mundo torna-se mais lindo com as atitudes e formas singulares de ver e aceitar a vida. Quero agradecer-te Renata por nos ensinar a amar com o coração, pela gentileza de partilhar a tua bela história e por ser um presente que a vida genuinamente me deu - minha irmã do coração.

Célia Oliveira

10 mai, 2018

Tenho uma gratidão sem tamanho de poder compartilhar dessa estória. A Renata é um ser iluminado!

SILVANA FERNANDES

10 mai, 2018

Vc merece

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